Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008

Gatos do campo e gatos da cidade


Como genuíno produto (sub)urbano que sou, pensava que tudo o que miava e ronronava seria lustrosamente preto, cativamente afável,encantadoramente tranquilo, enfim, sumamente civilizado.Como eu! E com isto, refiro-me a saber o que vai por esse mundo,conhecer as idéias do Barak(tem a minha bela côr)e da Hillary, distinguir um autocarro de um pombo vistos das lonjuras do meu último andar,e,sobretudo, ignorar a barulheira citadina, venha ela dos passarocos que deixam riscos no céu ou da furiosa incontinência dos bombeiros voluntários nas enchentes destes dias.
Vem isto a propósito de umas primas, muito provincianas, que abancaram cá em casa há uns diazitos, em busca de tratamento médico na cidade, enquanto a dona delas e mãe da minha(dona)se arrastava, também, até ao Egas Moniz. Lá na aldeia, nenhuma delas se safava com o Serviço Nacional de Saúde, ao que oiço nos telejornais enquanto acompanho os meus donos ao jantar ...
Onde elas vivem, os doutores das ovelhas e das vacas que lá aparecem rir-se-iam, se o dono (macho lusitano) lhes aparecesse para tratar de duas...gatas! A hipótese de atravessar a fronteira foi patrioticamente posta de parte pela minha dona que se assume tutora das cachopas desde odia em que se assumiu como parteira das ditas, ao nascerem!
As coitadas, tendo sobrevivido, em silêncio sepulcral a uma viagenzita de trezentos quilómetros, foram, então, devidamente tratadas numa clínica da cidade, onde, como cúmulo das atenções as drogaram, esventraram ,coseram e enjaularam!!Agora entendo o que é que a minha dona quer dizer quando eu me porto mal e ameaça "olha que eu trato-te da saúde, Romeu"!
As primas coitadinhas,estão, pois, cá em casa, fechadas num quarto, a convalescer das cirurgias e estranham tudo aquilo de que falei antes, de tal modo, que uma delas, a Farrusca, só saiu de debaixo da cama ao fim de um dia e, mesmo depois, ao menor susto, desaparece nas profundezas da mesma. Já a Branquinha, é mais como eu e, se bem que seja desbotada, é mais aventureira e deixou-me cheirá-la no nariz uns segundos antes de ambos bufarmos furiosamente - momento emocionante, pois pensava eu que só havia gatos no Hospital dos Animais que é o meu imperdível programa de TV .
Ontem saíram para a varanda envidraçada, para arejar, segundo a minha dona, mas após uma rápida inspecção, devem ter tido vertigens e voltaram ao sossego reconfortante do quarto já conhecido.Eu e a minha irmã, volta e meia, pata ante pata, espreitamo-las do outro lado do vidro, mas elas não parecem particularmente entusiasmadas. Será a isto que chamam a desconfiança campónia???E porque nãoas deixam ver TV,na sala, como nós???
A minha dona explicou-me que as coitadas não achariam graça porque, lá na aldeia, o pai e dono das primas, está sempre a ver TVE ou TVGalícia e por isso devem ter um certo handicap linguístico que nos dificulta a comunicação.
Hoje, as minhas primas foram à drª Margarida para ela acabar de lhes tratar da parte estética final, e deixá-las livres dos pontos de alta costura e poderem regressar à aldeia e aos mimos dos donos mortinhos de saudades, mas parece que a Branquinha sai à família e também tem compulsões, no caso tornou-se uma lambedora compulsiva e estragou o arranjinho da costura que tão cara vai custar, pelo que ambas voltaram a casa, melhor dizendo, aos escafundões do quarto, com uns belos colares isabelinos, tipo damas medievais, que as tornam patuscas porque se põem a andar...para trás,quais caranguejos, feitas tontinhas, tropeçando a torto e a direito!
Vamos esperar mais dois dias a ver se as priminhas adquirem mais modos, antes de voltarem para casa onde, certamente, terão muito que contar aos outros primos do campo que por lá abundam!

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