Sábado, 20 de Outubro de 2007

A minha família quadrúpede


Ou porque hoje é sábado, ou porque os dias de "indução" desta forçada dieta me deixam menos inspirado, a verdade é que pouco me apetece dissertar sobre as maravilhas gastronómicas anunciadas pela minha adorada, mas intolerante dona, por isso, achei que era tempo de vos apresentar a minha família.
Para já, os "quadrúpedes" mais próximos,aqueles a quem dou o privilégio de me aturarem os ronrons,as rosnadelas ou os acessos de poder ditatorial que me permito impôr-lhes durante o dia, enquanto os meus donos se esfalfam a ganhar pró meu granuladozinho, invejando a suposta pacatez da nossa vidinha isenta de stress.

Começando, convém saberem que tenho uma mana, baptizada, inicialmente de Julieta por causa de um tipo com quem a minha dona teve um caso, chamado Sakespeare, mas agora, só chamada, meladamente de "gatinha". Gosto muito dela, claro, é a voz do sangue, vocês entendem, mas às vezes dou comigo a pensar nela...com estranhas intenções e, não fosse eu ter sido submetido a uma cirurgia na minha adolescência "para não haver mais problemas depois" e penso que haveria o perigo de eu a sufocar, agora que estou um macho robusto e bem constituído! Não me lembro que doença anunciada terá sido aquela, mas suponho que seria congénita e hereditária, pois uns dias depois de ter passado os dias a lamber o traseiro até à exaustão, a minha irmã teve o mesmo tratamento que, no caso dela pareceu bem mais complicado porque a coitada voltou toda enfaixada e sem se poder coçar, como eu, nos sítios críticos. Ainda ficou mais deprimida por ter ouvido dizer que não iria ter crias, por culpa da tal doença de família, suponho...
Hoje, a minha mana é bastante saudável, mas, coitada, não saiu a mim na robustez, tendo ficado uma lingrinhas, enjoadinha e pouco dada a petisqueiras como eu. Acresce a isto que é fanática do exercício intensivo dado que pratica salto em altura para chegar ao Royal Canin dela que me é proibido tocar e que Ela e Ele colocaram em cima das duas máquinas de lavar e de secar onde, pensam eles, não consigo chegar e pratica também jogging acelerado em correrias tontas pelos cantos da casa quando está feliz.Tirando estes arroubos aeróbicos, na maior parte do dia é muitíssimo mais preguiçosa do que eu , dormindo toda a manhã e toda a tarde, enrolada em si própria e nem mesmo em caso de estrondo, tipo, cai o elevador do prédio,a minha dona parte uns pratos danada com a dieta ou o outro quadrúpede da casa berra estridentemente ela se digna sair do seu torpor. É preguiçosa e está tudo dito.
Afirmo aqui que é uma grandessíssima injustiça da Natureza que eu seja mais dinâmico e activo ( "este é um gato muito interactivo" diz o meu dono com enlevo)e...tenha que fazer DIETA!!
A minha dona já comentou que também me deviam ter feito uma limpeza às glândulas endócrinas e dou em pensar se não terá havido negligência cirúrgica comigo!?!?

O outro quadrúpede a que já aludi é o canito que já por cá existia quando nos adoptaram e que só tem razões para nos estar agradecido, apesar de o termos destronado da sua condição de filho único durante anos.
É o Cookie. Nome pouco imaginativo segundo a minha dona, mas entendo que o coitado dificilmente poderia chamar-se Brutus ou Nero ou Leão, pois é um peso pluma com o qual tenho de ter um cuidado extremo pois , de tão minorca corre o risco de ser eliminado à primeira patada ou esventrado se me esqueço de enrolar as minhas preciosas e poderosas garras.
O pequenote é ainda mais lingrinhas do que a minha irmã e, não fosse o pêlo que vai crescendo até ao chão , era mesmo uma pulga. Eléctrica!Parece que tem pilhas Duracell e, se se lembra de ladrar furiosamente a qualquer barulho exterior, não há aspirinas suficientes. A minha dona já ameaçou que o levava a um doutor suíço e ela deve saber do que fala e diz que nos anos que por lá viveu NUNCA ouviu um único cão ladrar porque os doutores lá são mais amigos do ambiente do que cá, prezam muito a quietude e paz de espírito e engendram umas operaçõezinhas certeiras aos incontinentes vocais. Cheira-me que é esta a operação do "vamos levar o bicho à castração" e só por isso gosto muito de viver em Portugal!

Àparte o ruído , o nervosismo ( vês como o bicho é um stressado como o dono?? vês??-oiço com os meus ouvidinhos supostamente adormecidos), é um amigo leal e, se por acaso alguém o pisa e ele guincha, tanto eu como a minha mana logo acorremos em seu socorro, pois somos verdadeiramente irmãos e defendemos a tribo com garras e dentes. O único problema, na verdade, é a difícil comunicação, porque ele nem sempre nos entende e, ora se comporta como uma criança inconsciente a morder objectos estáticos que chiam, ora nos ladra sem razão, só por subirmos a uma mesa, ou arranharmos furiosamente as cadeiras da sala, como se fosse algum crime...também tem o estranho hábito de nos perseguir a cheirar os nossos rabiosques, mas isso deve ser por não ter os nossos sofisticados hábitos de higiene;não sabe usar o W.C. como nós, não se lava quando chega da rua, nem trata do pelo ao deitar como eu e a gatinha fazemos durante uma boa meia hora e que exaspera a minha dona que quer adormecer: "gatos, acabem lá com a porcaria do barulho da toilette"!!

Eu disse que ele tem toneladas de razões para nos estar agradecido, porque a nossa companhia salvou-o da profunda depressão em que se encontrava já há algum tempo.
Ouvi que o coitado passava os dias a suspirar pelos cantos, mal se levantava, não comia, enfim, era mesmo uma daquelas depressões aguda que prometia ser de caixão à cova, com direito a Atarax e tudo!!
Um fim próximo desenhava-se no horizonte "bem vêem, o bicho já tá velhote, nove anos é muito, etc...", franguinho cozido, peixinho fresquinho, e ele suspirava, dormia, inerte e abúlico...esquisites!dêem-me lá essa dieta e eu explico a depressão!!
Pois ao ver-nos por cá, dois intrusos pretos e eriçados, recém-chegados a um planeta estranho, amedrontados com uma coisa peluda e barulhenta que nunca antes vislumbráramos, resolveu mostrar que quem ali mandava era ele e, desde então, vai de ladrar sempre que pode, vai de cuscar o que fazemos, perseguidor implacável das nossas brincadeiras , o mano Cookie rejuvenesceu e, apesar de cinco anos depois estar em plena terceira idade, continua a melgar, convencido da sua autoridade, pois não percebe a criatura que só o nosso bom feitio, a nossa esmerada educação (sim, nascemos e passámos a infância numa escola, mas isso é outro capítulo),a nossa magnanimidade, enfim, a nossa superior inteligência felina permite que o deixemos ter a ilusão de ainda ser o rei e filho dilecto da casa.

1 comentários:

Maria G. disse...

A tua bela prosa e a observação da fotografia que nos ofereces (na companhia da tua mana e amigo) são dois ingredientes calmantes/anti-stressantes para terminar o dia "estafante" de hoje... de ontem... de ante-ontem... é melhor parar por aqui... a tua dona percebe muito bem o que quero dizer.
Bem hajas Romeu e Companhia!